Introdução: quando a primeira mamada não acontece

Ana chegou ao quarto com o bebê nos braços e uma dúvida insistente no peito: “Será que ele já deveria ter mamado?”. O parto tinha sido cesárea, o bebê estava bem, mas ninguém comentou sobre a amamentação.
A primeira hora passou. Depois vieram o banho, as visitas, os exames. A amamentação só começou 4 horas depois.
Essa história não é rara.
Embora a “hora dourada” (o período de 60 minutos após o nascimento) seja reconhecida mundialmente como um momento crucial para o aleitamento materno, ela ainda é negligenciada em muitos contextos hospitalares.
Mas o que a ciência tem a nos dizer sobre isso?
Um estudo longitudinal publicado na Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil acompanhou 352 pares mãe-bebê ao longo de cinco anos. O objetivo era avaliar se a amamentação na primeira hora influenciava na manutenção do aleitamento materno exclusivo (AME) e na qualidade da alimentação complementar.
Os dados mostraram que:
- Bebês amamentados na primeira hora tinham maior prevalência de AME aos 2 meses de vida (p = 0,024).
- Esses mesmos bebês também apresentaram menor consumo precoce de açúcar, mel e sal na alimentação complementar (p = 0,035).
- Já a associação com aleitamento continuado até 1 ano não foi significativa (p = 0,183).
Ou seja, amamentar precocemente influencia o presente — e prepara um terreno mais saudável para o futuro.
“A amamentação precoce está associada à redução de práticas inadequadas na alimentação complementar, como a introdução precoce de açúcar e sal.”
(Amamentação na primeira hora: associações com duração da amamentação exclusiva e alimentação complementar, RBSMI)
Quais são as barreiras para esse início precoce?
Mesmo com evidência clara, muitas mães não conseguem amamentar na primeira hora. Entre os fatores mais frequentes, destacam-se:
- Rotinas hospitalares rígidas, como separação mãe-bebê após cesárea ou parto normal para procedimentos de rotina.
- Falta de protocolos específicos que orientem a equipe sobre como proteger o contato precoce.
- Ausência de capacitação profissional sobre o impacto real da hora dourada.
- Crenças culturais e institucionais que priorizam a técnica sobre o vínculo.
Em contextos vulneráveis ou de cesáreas agendadas, esses obstáculos tendem a se agravar.
O que os profissionais de saúde podem fazer?

Garantir a amamentação na primeira hora não é apenas um gesto, é uma conduta baseada em evidência. E o profissional de saúde tem um papel fundamental nesse processo.
Algumas ações práticas incluem:
- Atuar com prontidão logo após o parto, inclusive em cesarianas;
- Orientar a equipe multiprofissional para facilitar o contato pele a pele imediato;
- Evitar procedimentos que interrompam o vínculo nos primeiros minutos, sempre que possível;
- Criar e seguir protocolos institucionais que garantam a amamentação na primeira hora como parte do cuidado padrão;
- Empoderar a mulher para que ela conheça e reivindique esse direito.
Conclusão: da evidência à transformação do cuidado
A história da Ana, no início deste texto, não precisa se repetir.
Quando garantimos a amamentação na primeira hora, não apenas favorecemos a produção de leite ou a adesão ao AME, também protegemos o vínculo, estimulamos a autorregulação do bebê e plantamos as primeiras sementes de uma infância mais saudável.
Como profissionais da saúde, precisamos transformar esse conhecimento em prática diária.
Porque cada hora dourada que respeitamos pode significar uma jornada mais leve para mães, bebês — e para toda a rede de cuidado.
Fonte:
Ficagna et al (2024): Amamentação na primeira hora: associações com duração da amamentação exclusiva e alimentação complementar. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil. 2022.
Imagens: Gemini IA



