Imagine a cena: o bebê acorda várias vezes durante a noite, pedindo peito. Você tenta acalmá-lo, oferece o colo, amamenta, troca a fralda… e quando finalmente adormece, percebe que o relógio já marca quase a hora de levantar para ir trabalhar. O corpo dói, os olhos pesam e a mente parece não acompanhar o ritmo.

Esse é o retrato real da vida de muitas mulheres que conciliam o retorno ao trabalho com a amamentação. Um desafio intenso, que mistura cansaço físico, cobrança emocional e a pressão de continuar oferecendo o melhor ao bebê.

No Instituto Ery, acreditamos que falar sobre isso é essencial. Não para romantizar o esforço exaustivo, mas para reconhecer que a maternidade precisa de rede de apoio, de informações confiáveis e de práticas que ajudem a atravessar essa fase de forma mais leve.

Um estudo recente de Wan et al. (2024), realizado na China com mães que voltaram a trabalhar enquanto amamentavam, traz relatos reais que ajudam a compreender o que está em jogo e como transformar esses desafios em aprendizados. Vamos mergulhar juntos nesse tema?

O impacto do retorno ao trabalho na rotina da mãe

O fim da licença-maternidade costuma ser um momento delicado. Por um lado, há a necessidade de retomar a vida profissional, garantir renda e, em alguns casos, redescobrir a si mesma para além do papel de mãe. Por outro, existe a preocupação com o bebê, o medo de não estar presente o suficiente e a exaustão acumulada das noites interrompidas.

O estudo de Wan et al. (2024) mostrou que muitas mães relatam sentimentos de culpa, ansiedade e até insegurança sobre sua própria capacidade de continuar amamentando no ritmo exigido pelo bebê. Uma participante disse:

“Eu realmente queria continuar amamentando, mas a falta de sono e a pressão no trabalho me deixavam no limite.”

Essa fala traduz bem a realidade: quando o corpo está cansado, a mente sofre e, muitas vezes, a amamentação parece ficar em segundo plano. Mas a boa notícia é que existem estratégias para lidar melhor com essa fase.

Por que o sono fica tão fragmentado?

Nos primeiros meses, é esperado que o bebê acorde várias vezes para mamar. O leite materno é de digestão rápida, e a necessidade de proximidade faz com que o bebê precise desse contato noturno.

O problema é que, ao voltar a trabalhar, a mãe já não tem a possibilidade de “compensar” esse sono durante o dia. A rotina profissional exige atenção, prazos e energia, algo difícil quando a noite foi quebrada em vários despertares.

Segundo Wan et al. (2024), muitas mulheres relataram que o cansaço físico era agravado pela falta de compreensão no ambiente de trabalho:

“Ninguém parecia entender por que eu estava tão exausta. Era como se fosse esperado que eu simplesmente desse conta de tudo.”

Essa invisibilidade das necessidades maternas contribui para aumentar o estresse, o que impacta diretamente no bem-estar e na produção de leite.

Cansaço x Amamentação: como um interfere no outro

O cansaço extremo pode influenciar diretamente na vivência da amamentação. Algumas mães relatam dificuldades em manter a produção de leite, aumento das dores e até vontade de desistir.

Isso não significa que seja impossível continuar amamentando, mas sim que o corpo precisa de suporte. O estudo destaca que:

“A falta de apoio familiar e de políticas de trabalho adequadas foi apontada como um dos maiores obstáculos para a continuidade da amamentação.”

Em outras palavras, não é apenas uma questão individual da mãe. É uma questão social, cultural e de saúde pública.

Estratégias práticas para lidar com o cansaço e a privação de sono

Apesar dos desafios, existem formas de tornar esse período mais leve. Abaixo, reunimos algumas estratégias práticas, inspiradas no estudo de Wan et al. (2024) e na experiência clínica das especialistas do Instituto Ery.

Ajuste de expectativas

Não espere ter noites perfeitas. O bebê vai acordar — e isso é normal. A grande mudança está em como você se organiza para lidar com esses despertares. Ao aceitar que a fase é transitória, a ansiedade tende a diminuir.

Cochilos estratégicos

Se possível, aproveite pequenos intervalos no fim de semana ou quando alguém puder ficar com o bebê para descansar. Não são horas inteiras, mas 20 a 30 minutos de sono podem ajudar muito na reposição de energia.

Rede de apoio consciente

Converse com seu parceiro, familiares ou amigos próximos sobre a importância de dividir tarefas. Nem sempre eles saberão como ajudar, então seja direta: peça para que cuidem do bebê em determinados momentos, preparem refeições ou organizem a casa.

Ordenha como aliada

A ordenha pode ajudar a garantir que o bebê seja alimentado mesmo quando você precisa descansar ou está no trabalho. Aprender a armazenar e oferecer o leite de forma segura é um passo importante para manter a amamentação e ganhar um pouco mais de flexibilidade.

Rotina previsível (sem rigidez)

Tente criar um padrão para as mamadas e o sono noturno, mas sem cobranças exageradas. Aos poucos, o bebê se adapta e você também passa a reconhecer melhor os sinais de fome e sono.

Comunicação no trabalho

Sempre que possível, explique sua situação para colegas ou superiores. Pode parecer difícil, mas abrir esse diálogo ajuda a criar um ambiente mais empático. Como destacou uma das mães no estudo:

“Quando finalmente consegui conversar com meu chefe, percebi que havia mais abertura do que eu imaginava.”

Cuidado com a sua saúde

Alimentação equilibrada, hidratação e, se possível, alguma atividade física leve podem ajudar a melhorar sua disposição. Além disso, buscar apoio psicológico pode ser um grande aliado para lidar com a sobrecarga emocional.

O papel da família e da sociedade

É impossível falar sobre sono e cansaço materno sem falar de corresponsabilidade. Não basta cobrar da mãe que dê conta de tudo. O parceiro, a família e até o ambiente de trabalho precisam estar comprometidos em oferecer suporte.

Wan et al. (2024) reforçam:

“O desejo de amamentar está presente na maioria das mulheres, mas a continuidade depende do ambiente e do apoio recebido.”

Isso significa que a rede de apoio não é um detalhe, mas sim uma peça-chave para que a mãe consiga conciliar trabalho, amamentação e autocuidado.

Transformando desafios em aprendizados

O retorno ao trabalho enquanto se amamenta é, sem dúvida, um dos períodos mais desafiadores da maternidade. Mas também pode ser um momento de descobertas, de fortalecimento do vínculo com o bebê e de construção de novas rotinas familiares.

A privação de sono não desaparece de um dia para o outro, mas pode ser amenizada quando existe apoio, informação de qualidade e a consciência de que essa fase, apesar de difícil, é temporária.

Conclusão

Conciliar trabalho, amamentação e noites mal dormidas é uma realidade que exige muito das mães. Mas você não precisa carregar esse peso sozinha. Informações práticas, apoio consciente e pequenos ajustes na rotina podem transformar essa experiência em algo mais leve.

Como disse uma das mães entrevistadas no estudo de Wan et al. (2024):

“Não foi fácil, mas quando percebi que não estava sozinha, encontrei força para continuar.”

Que esse seja o lembrete principal: você não está sozinha.

Fonte

Wan, Y., et al. (2024). Breastfeeding after returning to work: a qualitative study of experiences among Chinese nurse mothers. BMC Pregnancy and Childbirth, 24, 95.

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Editorial Instituto Ery