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Amamentação. No início de todo o processo – principalmente para as mães de primeira viagem – é muito comum que surjam pessoas para dar conselhos sobre o aleitamento materno. À primeira vista, ajudam. Mas, muitas vezes, esses conselhos acabam deixando a mãe insegura e podem atrapalhar. Da mesma forma, o pior apoio que uma mulher pode ter é receber informações erradas, por meio de uma ajuda que chega travestida de auxílio adequado.

Nesse meio tempo, a mulher, que está num momento com o “olhar voltado para dentro”, conectada com o bebê, nem sempre terá condições de discernir sobre as informações que chegam até ela.

Frequentemente, é comum ouvirmos: mas por que não procurou ajuda? Por que não buscou uma segunda opinião? Fato é que a mulher está ocupada com as questões do bebê, está mudando seu posicionamento na vida, está sem dormir, banhada de hormônios que ajudam a  afastá-la um pouco da realidade. E isso é muito importante, pois nas primeiras semanas após o parto, a mulher precisa realmente estar focada nos cuidados com o bebê.

Informados e sensíveis a esse momento, as pessoas ao seu entorno têm uma responsabilidade muito grande sobre o que falam. Além das pessoas mais próximas, todos que prestam assistência a mulher e a família nesse momento são responsáveis por ajudar na amamentação.

Mas, com tantas informações e opiniões diferentes, como é possível ajudar sem atrapalhar? Vamos ver ponto a ponto.

O companheiro

O apoio do companheiro na amamentação é muito importante. Um estudo de revisão muito bom, que trata sobre o impacto da presença do pai na amamentação mostrou que quando o companheiro está presente nas primeiras semanas de vida do bebê, participa dos cuidados, acredita na capacidade da mulher de cuidar e amamentar, a amamentação funciona melhor e por mais tempo (Brito e col 2020).

Além disso, o trabalho mostrou também a importância dos serviços de saúde incluírem os pais nos programas de capacitação familiar sobre aleitamento materno e  investirem na promoção do cuidado paterno.

(Referências: BRITO, João Gabriel Cordeiro de; BARBOSA, Milton Jorge Lobo; ARAÚJO, Kerliane Gomes de; SILVA, Dailton Santos; CAVALCANTE, Natália Bezerra. A Presença Paterna no Aleitamento Exclusivo. Id on Line Rev.Mult. Psic., Outubro/2020, vol.15, n.52, p. 799-812.)

Companheiro (a): reforce a capacidade de sua companheira de alimentar o bebê!

  1. Leia sobre amamentação e a ajude  na hora da mamada;
  2. Ajude a reconhecer o que não vai muito bem e tranquilize quando a mãe estiver mais preocupada;
  3. Ajude nas questões práticas com o bebê como colocar para arrotar e trocar fralda;
  4. Assuma os afazeres domésticos;
  5. Faça uma comidinha gostosa.
  6. Principalmente esteja próximo.


A mãe da mãe (ou quem estiver neste papel)

Quando se fala em amamentação, muita coisa mudou e muitos conceitos se fortaleceram nos últimos 30 anos. Nesse sentido, as avós que são tradicionalmente quem dão suporte às puérperas, na sua maioria, não tiveram uma experiência satisfatória de amamentação quando consideramos os parâmetros atuais. Veja abaixo:

Um estudo realizado em  2018 com 91 mulheres mostrou que 67,3% das avós acreditavam que os bebês deveriam comer antes dos seis meses de vida e 54% achavam que o bebê deveria mamar em um horário fixo. De acordo com 40%, o leite fraco existe, e 69%  ofereceram água e/ou chá aos bebês. (Thelen e col 2018)

Conforme foi apontado, fica nítido que as avós precisam ser incluídas nos programas que promovem a amamentação para as mães. Por outro lado, a ajuda com os afazeres da casa, alimentação, suporte emocional para mãe e bebê, valorização do cuidado da mãe com o bebê são conhecidos fatores que ajudam a promover o aleitamento materno exclusivo.

(Referências: Thelen Daiana Mendonça Ferreira, Luciana Dantas Piccioni Patricia Helena Breno Queiroz Eliete Maria SilvaIanê Nogueira do Vale. Influência das avós no aleitamento materno exclusivo: estudo descritivo transversal/ Einstein_Journal, 2018)

Dicas de ouro:

  1. Reforce a capacidade de sua filha de cuidar do bebê!
  2. Não diga o que fazer; se necessário faça apenas sugestões.
  3. Se sua experiência de amamentar não foi tão boa, reforce que ela poderá fazer diferente.
  4. Ajude a acalmar mãe e bebê.
  5. Ajude nos cuidados com a casa, faça uma comidinha gostosa.

 

As amigas, primas e outros familiares próximos

Infelizmente muitas mulheres não recebem o apoio que precisam e não conseguem amamentar seus bebês como gostariam e em uma tentativa de ajudar alertando para os problemas, acabam por levar para a puérpera experiências difíceis e frustrantes. Assim sendo, o relato dessas experiências mal sucedidas para a mulher gestante ou a que amamenta pode impactar diretamente na amamentação. O que falamos aqui: não é preciso esconder a experiência difícil, mas a maneira como ela é relatada pode influenciar de forma negativa ou positiva o aleitamento materno.

Cada história é diferente e a experiência ruim também serve para que a próxima seja melhor, pois se aprende com as dificuldades. Então, é importante que as mulheres que estão próximas utilizem a sua experiência para ajudar a mãe. Caso tenha sido uma boa experiência será ótimo! Porém, se a amamentação foi uma experiência ruim, é preciso ajudar a mãe a construir sua própria história e não repetir os possíveis erros que levaram ao desmame de seus próprios bebês.

Como posso ajudar?

Após o nascimento, as mulheres se queixam de isolamento social. Então é importante que  as pessoas próximas tragam momentos sociais prazerosos – claro que adequados para o momento – que podem ser acompanhados por momentos de riso e relaxamento. Fica a dica também: leve uma comidinha, umas flores, um agrado para a mãe e o bebê.

Os profissionais de saúde

As dificuldades de amamentação no início da vida geralmente têm a ver com ajustes no manejo. Por exemplo: ajudar a mãe ajustar um pouco a pega do bebê, como apoiar a mama, como posicionar o bebê e outras questões. se nessa fase ela recebe a ajuda adequada, a chance da amamentação se estabelecer de uma maneira satisfatória é muito grande.

Na maternidade

Muitas das maternidades públicas fazem parte do programa “Iniciativa Hospital Amigo da Criança”, que tem protocolos muito importantes para ajudar mãe  e bebê no início da vida e práticas que favorecem o aleitamento materno. Quando a mulher dá a luz em um desses hospitais ela será acolhida e as dificuldades de amamentação serão menores.  Muitas mulheres, no entanto, têm o parto em maternidades que ainda não fazem parte dessa iniciativa. Mas alguns facilitadores estão presentes em praticamente todas as maternidades do SUS como por exemplo o alojamento conjunto, que facilita muito nesse começo de vida do bebê como veremos abaixo.

Caso a mulher for para uma maternidade privada, procure uma que tenha um bom conceito no acolhimento das famílias, com menos regras que atrapalham.

Esteja atenta aos seus direitos! Por exemplo, o alojamento conjunto. O bebê não deve ser separado da família. Sabia que mesmo o bebê sendo levado à UTI, os pais têm o direito de acompanhá-lo? Não existe visita para bebês internados na UTI; a família deve ter livre acesso, de dia e de noite se assim o desejar.

Nada justifica separar um bebê saudável de sua mãe, seja para ser examinado, pesado, ou coletar exames. Mãe e bebê estarem juntos facilita o conhecimento dos dois e a amamentação.

O ambiente precisa ser favorável à amamentação: desde a ambientação, fortalecendo a cultura da amamentação, passando pelos protocolos que permitem reduzir o uso desnecessário de fórmula, até a adequação do alojamento conjunto que mantém o bebê junto com a família, evitando separar o bebê desnecessariamente de sua mãe.

É função da maternidade e dos funcionários:

  • Utilizar de todos os recursos para manter mãe e bebê juntos da hora do nascimento à alta;
  • Elogiar a mãe e seu esforço em acertar na amamentação e nos cuidados com o bebê;

– Não gerar dúvidas sobre os tipos de mamas ou mamilos, sobre a quantidade de colostro ou a descida do leite;

– Não fazer pela família: aproveitar o momento para que possam aprender;

– Oferecer ajuda prática e as informações que forem necessárias para aquele momento. Evitar excesso de informações que não serão úteis nessa fase;

– Preparar o ambiente para que os pais tenham tempo para conhecer o bebê. 

O pediatra no consultório

Conhecer bem como é a evolução do bebê nas primeiras semanas de vida, as variações normais do peso, o ritmo das mamadas e ouvir a família ajuda muitíssimo.

O pediatra pode ajudar a família a entender as necessidades do bebê, dar segurança sobre sua saúde e desaconselhar as práticas que podem atrapalhar a amamentação, como o uso de mamadeiras e chupetas. 

 Valorizar a decisão da mãe de amamentar, pontuar os acertos e elogiar os esforços que a família faz representa uma grande diferença nessa assistência.

Infelizmente, dependendo de onde a família vive, nem sempre se pode escolher o pediatra. Algumas vezes precisamos ser atendidos pelo profissional que está no local. Se você está em uma maternidade onde o pediatra se concentra mais na parte orgânica do bebê, concentre no que ele pode oferecer: a segurança que o bebê está bem.

Se você está com dificuldade de amamentação e ele não pode te auxiliar, veja de que maneira a equipe de enfermagem pode te ajudar. E assim que receber alta procure outros recursos como: Banco de Leite Humano e/ou pessoas que amamentaram com sucesso/ consultora de amamentação, enfim alguém que te auxilie .

A consultora de amamentação

A consultora de amamentação é uma profissional que está muito próxima da mãe. Geralmente, o atendimento inclui assistência domiciliar e a consultora poderá entender melhor as situações que são trazidas pela família.

Dessa forma, ela poderá resolver as situações do manejo da amamentação e acolher a mãe. Além disso, entender a hora de encaminhar as situações mais complexas para locais que poderão ajudá-la é fundamental para que a mãe  possa ser bem assistida.

Como todo profissional, uma consultora de amamentação bem capacitada e atenta pode fazer grande diferença quando o assunto é aleitamento materno. Uma consultora de amamentação não deve cair na armadilha de fomentar a idealização da amamentação e nem exagerar na superação das dificuldades.

Fazer o básico: ajudar a resolver as dificuldades de manejo e as dúvidas, reforçar a capacidade da mãe de amamentar e ficar atenta quando a situação se complicar, firmar boas parcerias para poder encaminhar vão elevar o trabalho a outro patamar de qualidade.

Lembre-se sempre:

Uma experiência negativa, seja com familiares ou profissionais de saúde, dificulta mas não deve ser o final da sua história de amamentação. Não deu certo com um, tente com outro.

Na minha experiência em consultório recebo muitas mulheres que dizem: “essa é nossa última tentativa”. Com isso, mostram que já passaram por muitas decepções e frustrações. Frequentemente me emociono com essas histórias de sofrimento e de busca por ajuda, pois nenhuma mulher deveria precisar passar por essa experiência.

Dificuldades de amamentação podem acontecer, mas precisamos cuidar para que a mulher possa receber o cuidado que precisa e que a sua amamentação possa ser a melhor possível para ela!