Imagine uma mãe que segura seu bebê nos braços dentro de uma cela. O ambiente é frio, as paredes cinzas e o barulho dos portões de ferro contrasta com o silêncio delicado da mamada. Naquele instante, entre olhares e suspiros, a amamentação deixa de ser apenas nutrição: ela se torna a ponte mais poderosa entre mãe e filho, um fio de dignidade em meio às limitações do cárcere.Essa cena, que pode parecer distante da realidade de muitos de nós, é vivida diariamente por mulheres em situação de prisão. Para elas, o ato de amamentar é carregado de um significado ainda maior. É alimento, é vínculo, mas também é resistência e cuidado em um espaço que nem sempre está preparado para garantir esse direito.

Um estudo realizado em uma unidade prisional no Rio de Janeiro ouviu sete mulheres lactantes e revelou que, para elas, o aleitamento materno representa um “valor útil” — conceito da teoria de Max Scheler, que relaciona valores àquilo que supre carências e necessidades vitais. Dentro da prisão, esse valor se traduz em sobrevivência, saúde e conexão.

A amamentação como resistência


O leite materno, já reconhecido pela ciência como alimento completo e protetor, ganha uma dimensão ainda mais profunda no cárcere. Amamentar se torna uma forma de exercer a maternidade em um espaço que, muitas vezes, nega esse direito.

“É necessária uma transformação desse espaço em um ambiente legítimo, que valorize a amamentação por meio do apoio da família, de amigos e profissionais de saúde” (Santos et al., 2025).

Essa afirmação deixa claro: a amamentação, nesse contexto, só pode florescer se for legitimada e apoiada.

Desafios enfrentados pelas mães privadas de liberdade

  • Falta de protocolos claros para apoiar gestantes e lactantes.
  • Ambientes insalubres e estressantes, que afetam diretamente a saúde física e emocional.
  • Ausência de suporte psicológico e social.
  • Dificuldades em manter o contato contínuo com a família.

Muitas dessas mulheres já viviam em situações de exclusão antes da prisão — marcadas por pobreza, desigualdade e violências. Nesse cenário, o aleitamento aparece como um dos poucos momentos em que elas podem exercer sua maternidade de forma plena.

O olhar da saúde pública

O estudo lembra que o Brasil tinha, em 2022, 164 gestantes e 93 lactantes em unidades prisionais. Ao todo, 791 crianças viviam dentro de prisões, muitas delas em idade de amamentação. Esses números mostram que estamos falando de um tema de saúde pública, e não de casos isolados.

Garantir o direito de amamentar no cárcere significa também investir na saúde infantil, reduzir riscos de doenças e oferecer a essas crianças um começo de vida mais saudável.

O valor útil do aleitamento materno

Max Scheler descreve o “valor útil” como aquele que supre uma necessidade vital. No contexto prisional, esse valor é evidenciado quando as mães reconhecem que, ao amamentar, oferecem não apenas nutrientes, mas também proteção, afeto e uma oportunidade de estar presentes na vida de seus filhos, mesmo em condições adversas.

A amamentação, para essas mulheres, é uma forma de garantir saúde e vínculo, mas também de reivindicar dignidade.

Conclusão: quando o cuidado atravessa as grades

Falar sobre amamentação no cárcere é lembrar que todo bebê tem direito ao leite materno e todo ser humano tem direito de exercer sua maternidade com dignidade. Mais do que um ato biológico, amamentar dentro das prisões é um gesto político e humano: é reafirmar a vida em meio às ausências, é resistir ao apagamento das histórias dessas mulheres e de seus filhos.

Transformar as prisões em ambientes que valorizem o aleitamento não é apenas uma questão de saúde, mas de justiça social e de direitos humanos.

Fonte:

Santos MV, Alves VH, Pereira AV, Vieira BDG, Rodrigues DP, Calandrini TSS, Alcici RS, Carmo RRAC. Mulheres lactantes e a percepção do valor útil para o aleitamento materno no espaço prisional. Ciênc. Saúde Coletiva. 2025;30:e05222023. DOI: 10.1590/1413-81232025301.05222023.

Imagens: Gemini IA

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